Belém do Pará, ano um. 401. | Parte 01

Foto: Maycon Nunes

À sombra dos urubus, Belém chega aos 401 anos. Foto: Maycon Nunes

Quão estranha e sofrida pode ser (ou é) uma cidade castigada pelo calor e pela chuva quase diariamente? Quão esperançosa é uma cidade que é capital de um estado que desde o hino já setencia: “teu destino é viver entre festas, do progresso, da paz e do amor”? Quão suja e abandonada é uma cidade com uma “infinidade de obras-sem-fim” e monturos de lixo, em que seus próprios habitantes e filhos não se intimidam e, em qualquer local e a qualquer momento, escarram grosso e raivosamente em dezenas de cusparadas destinadas ao solo citadino, amaldiçoando-o? Quão alegre e diversificada é uma cidade que na cultura, em que pese a gestão raquítica (pública e privada), possui uma produção rica, peculiar e instigante?
Após o quase apagado aniversário de 400 anos em 2016 (você lembra de algum grande evento na cidade no período? Uma grande reportagem? Algo que não fosse o clichê chato e insuportável de bolo-no-Ver-o-Peso-risos-e-olhares-famintos-e-baldes-com-bolos-cores-sabores-da-cidade-morena?), talvez seja hora de olhar para o passado “de relance” e, urgentemente, projetar e executar um/ no futuro ações minimamente concretas que ajudem a melhorar esta cidade. Belém pode começar então uma nova trajetória. Vive o ‘ano um’. O 401. Continuar lendo

Belém do Pará, ano um. 401. | Parte 02

Olhe pela janela de sua casa. Seu olhar pode cruzar com um prédio neoclássico e atrás dele um gigante de dezenas de andares; vire um pouco o rosto, levemente, e o casebre se cruzará com a casa de vidro repleta de arame farpado; se olhar para rua, talvez, o vendedor de frutas do fim da tarde e a caminhonete de luxo estejam disputando o mesmo espaço. “Os marcos” da cidade ainda existem, mas eles não mais residem sozinhos. Ignorar essa cidade, e não apenas seu cotidiano, é ignorar o presente como modo de aprender a retirá-la de seu manto que a encobre e, mimosamente, a eleva, esquecendo-se que é justamente com o presente e a partir de um presente que podemos dar um salto de “imagens dialéticas” (Benjamin) com a história. Belém, nos seus 400 anos, não pode adotar o “escapismo do presente”. (“Belém 400 anos e o ‘escapismo do presente'”, Relivaldo Pinho, 2016)

Foto: Cezar Magalhães

Foto: Cezar Magalhães

Repleta de imaginários e lugares de fala como “nada aqui presta”; “ruim com fulano, pior sem ele”; “no tempo do Barata…”; “na época da Borracha…”, talvez (a população de) Belém seja marcada pela inércia. Sejamos sinceros e atenciosos: reclamamos muito, fazemos pouco (e não raramente ainda duvidamos/ criticamos quem faz), cansamos rapidamente. Esperar uma solução dos céus é mais cômodo e mais simples. Ad(Mirar) outros locais é melhor ainda. O “problema” é que tal admiração muitas vezes também parte de imaginários (nem sempre “reais”) como “lugar com mais oportunidades”, “cidade maravilhosa”, “lá pelo menos tem praia”, “vou poder usar roupa de frio” e assim por diante. Neste contexto, uma região torna-se mais especial: o Sudeste. O El Dorado da Amazônia contemporânea. A Pasárgada pós-moderna onde se-trampando-tudo-dá.
Sair de Belém e exilar-se e/ou tentar crescer em outra cidade é errado? Claro que não. A atitude ajuda de fato a capital paraense? Provavelmente não, o que não significa que é algo condenável, obviamente. Pelo contrário: só se cresce em contato com o outro, com as trocas. Continuar lendo

A “dupla feat.” ou a produção musical difusa/ confusa da pós-modernidade

Imagem: Divulgação/site oficial

Alexander Delgado e Randy Malcolm integram a cubana Gente de Zona. Imagem: Divulgação/site oficial

Se você conhece um pouco da produção musical de outros países latinos – lembremos e lamentemos que, para muitos, “música latina” é música não feita no Brasil… -, em especial a contemporânea, já deve ter conhecido a dupla cubana Gente de Zona, formada por Alexander Delgado e Randy Malcom. E, com eles, você conheceu inúmeros outros músicos, não é mesmo?! É “feat” pra lá, “feat” pra cá…
Tem dúvida? Faça um teste rápido: troque de aba e pesquise “Gente de Zona” no Youtube ou mesmo no Google. Enrique Iglesias, Marc Anthony, Juan Magan, Pitbull e Los del Rio (os mesmos do “êêê Macarena”) são rapidamente destacados por parcerias com os cubanos. Curiosamente (e ironicamente), um dos primeiros videoclipes encontrados nas buscas sobre a dupla que não possui “feat” é o da música “Algo contigo”… Continuar lendo

Intercom divulga agenda de eventos regionais em 2017. Curitiba é logo ali!

caminho-1As edições regionais do Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Intercom em 2017 já estão definidas. A lista foi divulgada no site da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.
Os congressos regionais serão, por ordem de período de realização: Continuar lendo

O que fica do Intercom 2016 ou “conselhos” para (jovens) pesquisadores em Comunicação

Imagem: Divulgação

Imagem: Divulgação

De 2008 até este ano, tive mais de dez trabalhos publicados nos anais das reuniões da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, a Intercom. Por “chatice” (discernimento?), não gosto de nenhum deles. Ou melhor: só de alguns, em parte. “E olhe lá”. Na verdade nem sei o que penso sobre, não os leio depois de publicados. No máximo “consulto” vez ou outra; o texto tem vida própria e, após escrito, não se sabe o que pode ocorrer e prefiro não percorrê-los novamente. Continuar lendo

Música da América Latina em alguns clicks

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

No processo de “aceleração e compressão do tempo e do espaço”, marcas da contemporaneidade, o mundo parece cada vez mais “encolher”. Deste modo, o acesso e desenvolvimento de diversos produtos artísticos se torna muito mais simples e possível de ser feito em poucos clicks. A música pulveriza-se e, em poucos minutos, uma canção pode rodar o planeta.

Levando isto em conta, resolvi reunir três sites que apresentam e disponibilizam notícias, programas de rádio e downloads gratuitos de música alternativa – e muitas vezes “independente” – da América Latina. As “dicas” podem ser úteis tanto para quem quer conhecer novas canções ou mesmo para “iniciados” na música contemporânea do continente.

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Pelo bem, pelo mal, Oswald Canibal

Reprodução

Imagem: Reprodução/videoclipe Oswald Canibal 

Há mais de um ano, mais precisamente em 13 de março de 2014, enviei um e-mail ao professor, pesquisador e músico Henry Burnett. O e-mail também era dirigido a Victória Costa, da produtora Fóton Filmes, e a Adriana Camarão, da empresa MCubo. Seu conteúdo, aparentemente simples, carregava em suas linhas, mais que um convite, uma proposta ousada: a produção de um videoclipe de alguma música de Henry.
Como esperado, a ideia de pronto foi aceita com entusiasmo por todos. De início, a sugestão era a canção Oswald Canibal, minha favorita. Outras, no entanto, chegaram a ser cogitadas e planejadas; pareciam ter preferência. Entretanto, quis o destino – e não somente eu – que, por algumas questões, a escolhida pela maioria no final das contas fosse mesmo Oswald Canibal. Continuar lendo