Belém do Pará, ano um. 401. | Parte 01

Foto: Maycon Nunes

À sombra dos urubus, Belém chega aos 401 anos. Foto: Maycon Nunes

Quão estranha e sofrida pode ser (ou é) uma cidade castigada pelo calor e pela chuva quase diariamente? Quão esperançosa é uma cidade que é capital de um estado que desde o hino já setencia: “teu destino é viver entre festas, do progresso, da paz e do amor”? Quão suja e abandonada é uma cidade com uma “infinidade de obras-sem-fim” e monturos de lixo, em que seus próprios habitantes e filhos não se intimidam e, em qualquer local e a qualquer momento, escarram grosso e raivosamente em dezenas de cusparadas destinadas ao solo citadino, amaldiçoando-o? Quão alegre e diversificada é uma cidade que na cultura, em que pese a gestão raquítica (pública e privada), possui uma produção rica, peculiar e instigante?
Após o quase apagado aniversário de 400 anos em 2016 (você lembra de algum grande evento na cidade no período? Uma grande reportagem? Algo que não fosse o clichê chato e insuportável de bolo-no-Ver-o-Peso-risos-e-olhares-famintos-e-baldes-com-bolos-cores-sabores-da-cidade-morena?), talvez seja hora de olhar para o passado “de relance” e, urgentemente, projetar e executar um/ no futuro ações minimamente concretas que ajudem a melhorar esta cidade. Belém pode começar então uma nova trajetória. Vive o ‘ano um’. O 401. Continuar lendo

A “dupla feat.” ou a produção musical difusa/ confusa da pós-modernidade

Imagem: Divulgação/site oficial

Alexander Delgado e Randy Malcolm integram a cubana Gente de Zona. Imagem: Divulgação/site oficial

Se você conhece um pouco da produção musical de outros países latinos – lembremos e lamentemos que, para muitos, “música latina” é música não feita no Brasil… -, em especial a contemporânea, já deve ter conhecido a dupla cubana Gente de Zona, formada por Alexander Delgado e Randy Malcom. E, com eles, você conheceu inúmeros outros músicos, não é mesmo?! É “feat” pra lá, “feat” pra cá…
Tem dúvida? Faça um teste rápido: troque de aba e pesquise “Gente de Zona” no Youtube ou mesmo no Google. Enrique Iglesias, Marc Anthony, Juan Magan, Pitbull e Los del Rio (os mesmos do “êêê Macarena”) são rapidamente destacados por parcerias com os cubanos. Curiosamente (e ironicamente), um dos primeiros videoclipes encontrados nas buscas sobre a dupla que não possui “feat” é o da música “Algo contigo”… Continuar lendo

Filme “Fisionomia Belém” entra em cartaz em janeiro na capital paraense

Cartaz oficial do Fisionomia Belém.

Cartaz oficial do Fisionomia Belém.

“Belém não é feita pra morar onde Belém está. Belém é um enxerto lusitano plantado num lugar quente pra dedéu, absolutamente de costas pras áreas de escoamento de vento. Historicamente os portugueses não queriam ter contato com o rio, não se sabe o porquê, por uma saudade imensa de onde eles vieram, por um sentimento, talvez, de extrema dor de estar num território longe de onde eles realmente queriam estar. E até hoje a gente não entendeu o que é estar morando aqui. O que seria isso, qual seria essa linha, qual seriam esses caminhos (…) A gente não entendeu como é que a Amazônia funciona. Como é que nós estamos funcionando na Amazônia? Nós estamos rodando no sistema errado, é essa a impressão que eu tenho todos os dias, eu fico atônito em como as pessoas não percebem isso, elas estão dando de cara o tempo todo nisso e, como você diz, estamos aqui um teatro, o palco está lançado, estamos atuando e nós ainda não descobrimos que o roteiro todo tá errado” (sic).
As reflexões – desabafos? – do jornalista e músico Lázaro Magalhães que iniciam este texto podem causar espanto e incômodo em muitas pessoas. Para muitas outras, no entanto, a possibilidade de compreendê-las como pontos de partida para discussões e compreensões mais amplas é o que talvez incite a tentar ver outra região, ou outras Belém do Pará.
Tais problemas evidenciados – e evidentes – na capital paraense e as relações com seus moradores são um dos pontos centrais no documentário Fisionomia Belém, que foi lançado em 2015 durante o Festival de Audiovisual de Belém e estará em cartaz em janeiro, na programação do Cine Estação das Docas. A programação, em comemoração aos 400 anos da capital paraense, contará ainda com a exibição dos filmes “Um Dia Qualquer”, passeio nostálgico pela Belém dos anos 1960, com direção e argumento de Líbero Luxardo e música de Waldemar Henrique, e “Desejo e Obsessão”, de Claire Denis (2001). Continuar lendo

Quando os muros falam, podem dizer muito

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Imagem: Reprodução/ Acción Poética

O poeta Paulo Leminski, em vídeo disponível na internet que mostra sua conversa com estudantes – possivelmente da Universidade Federal do Paraná (UFPR) – afirmou que tinha horror aos muros brancos.
Inserido em um contexto em que a poesia marginal marcava não somente seu espaço na produção artístico-cultural, como também na própria fisionomia da cidade, ele se referia aos muros como grandes e importantes meios de comunicação. Mais que o antigo embate “classificatório” entre pichação e grafite, a discussão se aproxima de ações e intervenções que buscam causar algo, seja uma reflexão, seja uma reação. Não cabe aqui refletir sobre uma possível ação criminosa ou não, mas sim seu cunho estético, político, poético.

Neste panorama, atualmente há várias ações que saem dos muros e chegam às redes sociais (em alguns casos, o contrário), mas destaco cinco que podem colaborar para reflexão sobre o tema, bem como outras reações através das frases, poemas, pensamentos inscritos e escritos. A escolha não foi das mais simples, mas apresentam um bom panorama sobre a temática, em especial na América Latina. Confira:

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A nova onda da favela

Imagem: Reprodução/ Tumblr Favela Wave

Através da estetização, a imagem de um sujeito o transforma em “homem signo” ou mesmo “homem-favela”, elemento representativo de toda a fisionomia de um espaço. Imagem: Reprodução/ Tumblr Favela Wave

Na contemporaneidade, imagens e cenários de áreas periféricas das cidades, em especial “favelas”, vão se modificando e, principalmente, passam a ter suas representações revistas, (re)criadas, estetizadas. Sejam modificações arquitetônicas (como a criação de conjuntos habitacionais ou projetos de loteamento, entre outros), sejam fatores midiáticos, como programas televisivos e discursos em redes sociais, ou ainda produções artísticas, diversos elementos colaboram para novas discussões acerca não somente do que “seria” a periferia, mas também os modos de representá-la. É neste panorama em que se nota a criação ou recriação de diversas possibilidades estéticas, inclusive das representações do espaço urbano, principalmente através da internet, além de discursos jornalísticos, publicitários e de outras ordens, que servem também como referência para o imaginário que compõe a urbe.
A partir desta mixórdia de referências, eu e o estudante de Publicidade e Propaganda e ilustrador Paulo Dias fizemos o ensaio “Cidade, contemporaneidade e (re)criação na internet: a estetização da periferia através da Favela Wave”, sobre a iniciativa carioca marcada esteticamente pela releitura do movimento estético da Vaporwave e Glitch Art. As plataformas da Favela wave apresentam/ representam os arquétipos locacionais, não somente da cidade do Rio de Janeiro, como de outras metrópoles que possuem tal construção em imagens e vídeos que mesclam signos dos “guetos” atuais com ícones de um futurismo imagético e outras características presentes em tal estética, o que chamou nossa atenção e motivou a análise do tumblr. Continuar lendo

Música da América Latina em alguns clicks

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

No processo de “aceleração e compressão do tempo e do espaço”, marcas da contemporaneidade, o mundo parece cada vez mais “encolher”. Deste modo, o acesso e desenvolvimento de diversos produtos artísticos se torna muito mais simples e possível de ser feito em poucos clicks. A música pulveriza-se e, em poucos minutos, uma canção pode rodar o planeta.

Levando isto em conta, resolvi reunir três sites que apresentam e disponibilizam notícias, programas de rádio e downloads gratuitos de música alternativa – e muitas vezes “independente” – da América Latina. As “dicas” podem ser úteis tanto para quem quer conhecer novas canções ou mesmo para “iniciados” na música contemporânea do continente.

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A cidade além das cenas: uma entrevista com Fernando Segtowick

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação

Famílias e seus problemas, angústias e aparências; uma versão não estereotipada de uma das principais lendas do estado; a maior manifestação religiosa do estado e do país como um “suspense” e mesmo drama pessoal e urbano. Dias (2001), Matinta (2010) e No movimento da Fé (2013). Em quinze anos, os curtas metragens de Fernando Segtowick, como estes citados, talvez já tenham conseguido demarcar (ou criar?) certo espaço e “aceitação”, seja pela crítica, seja pelo público. Mais que isso, suas obras audiovisuais contribuem ou mesmo expressam certa realidade contemporânea da Amazônia; em movimento, fluida, problemática e instigante, que incita também transformações na fisionomia da cidade.
Levando em conta tudo isto, no início de abril de 2015, o grupo de pesquisa “Comunicação, Antropologia e Filosofia: estética e experiência na comunicação visual, audiovisual e literária urbana da contemporaneidade de Belém do Pará”, coordenado pelo Prof. Dr. Relivaldo Pinho, da Universidade da Amazônia (Unama), entrevistou Segtowick. A conversa é uma das que integrarão o documentário que está sendo produzido pelo grupo e será lançado no segundo semestre. Continuar lendo