A cidade e/ é sua música.

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Henry volta a se apresentar no Sesc Boulevard na próxima sexta-feira (27) para lançar “Belém Incidental”. Foto: Divulgação

“Sou um compositor de canções tradicional, com a diversidade rítmica e poética de quem passou a maior parte da vida em Belém e que se nutre da cidade até hoje”. Assim se apresenta Henry Burnett, músico paraense que lança seu quinto álbum, “Belém Incidental”, na próxima sexta-feira (27), às 19h, em show gratuito no Sesc Boulevard.
Falar da obra de Henry é também falar de Belém. Não porque o músico, que também é pós-doutor em Filosofia e professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), repita clichês que se proliferam nas artes, no turismo e na mídia da capital paraense, mas sim por apresentar em suas canções diversas “facetas”, muitas vezes angustiantes e que incomodam, de uma população que não raramente se esquece e desconhece a si mesma.
(Re)unindo poesia e música, em boa parte de suas canções podemos notar “diagnósticos” sobre a cidade, reflexos de seu discurso e análise sobre uma urbe em que o “desamor” predomina e em que parece haver pouca ou quase nenhuma esperança.
Mais que isto: talvez suas canções – para além das que estão no álbum a ser lançado – carreguem certo “espírito de época” de uma metrópole cada vez mais conturbada, apressada e desorganizada, onde a frieza da população se choca cada vez mais com as altas temperaturas que castigam humanos, animais e objetos.

A banda de Henry Burnett (voz, violão, guitarra) é formada ainda por Renato Torres (guitarras e vocais); Maurício Panzera (baixo) e Tiago Belém (bateria). Imagem: Reprodução/Facebook

A banda de Henry Burnett (voz, violão, guitarra) é formada ainda por Renato Torres (guitarras e vocais); Maurício Panzera (baixo) e Tiago Belém (bateria). Imagem: Reprodução/Facebook

Levando todo este panorama em conta, aproveitei a data de lançamento do álbum de Henry para, assim como fiz nos últimos dois anos, ouvi-lo sobre as perspectivas (?) para a cidade em seu mês de aniversário, “comemorado” (?) no dia 12, quando completou 401 anos. Enviei então a Henry a provocação/ exercício de imaginação utópica que fiz com outras doze pessoas, que resultaram no texto “Belém do Pará, ano um. 401”. A questão era:
“Após 400 anos, Belém pode começar uma nova trajetória. Vive o ‘ano 01’. O que a cidade precisa com mais urgência? Qual o conselho tens a dar à cidade imaginando que sua história (re)começa agora? O que desejas a ela/ à população?”.

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Acredito que em um primeiro momento tais questões surpreenderam (ou assustaram) Henry. “Quem disse isso? parece uma fala de político, de quem não tem responsabilidade pública e utiliza o ano redondo para criar uma falsa ilusão de projeto.”, disse o músico ao se deparar com tal proposição, comentando a situação da cidade. Bingo! Era exatamente o tipo de reação esperada, que tem como fio condutor a mesma sensação/ sentimento citados por outras pessoas: o incômodo da reflexão e da observação, em retrospectiva ou não, da cidade e suas diversas circunstâncias cada vez mais problemáticas.
Logo após, Henry explicou sua resposta. “Belém não tem projeto, o último, apenas insinuado, foi elaborado na gestão do Edmilson Rodrigues, mas ao que parece o povo preferiu a continuidade do atual prefeito e o descalabro pelo qual passa nossa cidade agonizante. Não tenho nenhum conselho a dar, é tarde para isso ou para qualquer reação que possa recuperar o que foi a cidade. Nem se trata disso, de ‘voltar ao passado’, mas de um cuidado elementar com a arquitetura, a vida social e com o que resta em pé, nem isso existe. A história não está começando, está terminando. O que pode eventualmente começar é uma nova história, mais triste e decadente”, decretou.

Veja também: Belém do Pará, ano um. 401

Parecer pessimista? Não. Análise realista? Possivelmente. Tal diagnóstico, que erroneamente pode ser transformado em bandeira “política” ou de outras ordens, revela uma precisão que não cai somente no lugar de fala ou queixas aleatórias “de cunho social”.
Neste sentido, é possível citar a violência que toma conta da cidade, em especial nos inúmeros bairros e áreas periféricas da capital paraense. Sons de fogos de artifício, rojões e de disparos não raramente se unem em meio a festejos de ordens diversas, como comemorações (ou discussões) por conta de uma vitória ou derrota azul marinha ou bicolor, situação “descrita” em “Terra Firme”, canção presente no álbum-livro Retruque/ Retoque.

Nesta cidade em que a água da chuva dilui as manchas de sangue, sangrias abertas diariamente, ainda que se tente fugir, alguns clichês (símbolos ou mesmo ícones?) parecem inevitáveis, como a referência à chuva da tarde, ou mais precisamente às 14h30, como na canção presente no CD “Não para magoar”. A mesma chuva que “nos escurece” e que serve de “cenário para mil amantes” causa diversos riscos e é a base de “Chuva op. 14:30”:

Apesar de toda a poesia e lirismo da canção, sabemos que o cenário atual da cidade é bem mais complexo, problemático e menos idílico. Talvez isto explique o grande número de “exilados” fora do Estado ou ainda pessoas que seguem uma rotina “em movimento”, habitando na cidade, mas viajando sempre que possível (seja para casas no interior ou mesmo outros estados ou países). Cria-se então uma Belém mais contemporânea, menos ligada a um espaço físico de fato, mas sim a insigths, lembranças e cenários “nebulosos”. Uma Belém somente de relance, em movimento, de passagem. Sonora e violenta, a cidade das aparelhagens é a base de uma das principais canções do novo álbum do músico: “Belém de passagem”.

Neste movimento, diversas “Beléns” se cruzam, por vezes dialogam e em muitas ocasiões se chocam. Em especial uma Belém mais melancólica, próxima e acessível a todos, evidenciada (ou evidenciando) a decadência citadina, como a apresentada em “Oswald Canibal”, resultado da parceria de Henry com o poeta Paulo Vieira.
Simbiose de fatores, referências e estilos, a canção tem sua gênese na relação entre a poesia modernista de Oswald Andrade e a filosofia contemporânea de Benedito Nunes, passando pelo interstício que une (pelo bem, pelo mal) São Paulo e Belém do Pará. A canção “fala” da ambição do modernista Oswald e cita o recorrente diagnóstico de Benedito Nunes sobre o esfacelamento de Belém.

Neste “ciclo”, se é que podemos chamar assim, tal decadência termina sendo fortalecida pelos próprios moradores, que desamam a cidade, como afirmou o próprio Henry em entrevista em 2015, em outra reportagem minha, sobre o então aniversário de 399 anos da capital paraense. Aos problemas públicos e privados que se reproduzem em escala e dificultam melhorias na capital paraense, se soma então “o desamor pelos espaços de convívio, a destruição do patrimônio” por parte da população.
Na época, para Henry, este seria o maior problema observado na capital paraense. A solução? O próprio Henry responde: “A necessidade maior é simplesmente amar a cidade e cuidar dela como cuidamos da nossa casa, entendendo que a cidade deve ser uma continuidade amorosa de nossa intimidade”, explica. E isto pode ser feito através de linguagens artísticas, como a música, ainda que permaneçam inúmeras “promessas inscritas nas artes da cidade, que ainda não as merece”.

Confira: “Desamor”, mudanças na fisionomia e problemas marcam Belém contemporânea

Belém Incidental
Em entrevista, Burnett deu detalhes de Belém Incidental. “Foi um álbum pensado muito lentamente, embora tenha sido finalizado de modo rápido. São 10 faixas, que começaram a ser gravadas em Santarém há mais ou menos 4 anos, com produção de Fábio Cavalcante”, explica.
Além disso, Henry afirmou que “o álbum mistura canções antigas (“Vozes do norte”, “Balanço de onda”) com a safra mais recente (“Belém de passagem, com letra de Paulo Vieira); no meio delas, canções com meus outros dois parceiros frequentes, Renato Torres (“Reino”) e Edson Coelho (“Trem do samba”). Cada faixa foi escolhida com calma, por isso o conjunto fala. A exceção é “E nós”, que escrevi para os 70 anos da minha mãe, no ano passado”, antecipou.

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O disco estará disponível para download a partir de sexta. Imagem: Divulgação.

Seguindo o modelo de música independente (ou de “contra-indústria”, utilizado por alguns autores), o músico disse ainda que “o disco foi todo gravado em home studio, quatro no total. Mas a maior parte foi gravada e finalizada no Guamundo home studio, do Renato Torres, que divide a produção do disco com o Fábio, destacou.
Para quem já conhece sua obra, Henry avisou que “uma mudança muito grande foi feita neste álbum, onde assumi uma faceta apenas insinuada nos discos anteriores: o rock. De algum modo, esta opção significa uma homenagem ao grande movimento do rock paraense, simbolizado pela única convidada do disco, a Sammliz”, finalizou.

Perfil
Henry Burnett nasceu em Belém do Pará em 1971. Pós-doutor em Filosofia, atualmente é professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Como músico, possui quatro CDs gravados: o experimental “Linhas Urbanas”, 1996; “Não Para Magoar”, 2006; “Interior”, 2007, gravado em Buenos Aires em parceria com Florencia Bernales e o livro/CD “Retruque/Retoque”, 2010, em parceria com o poeta paraense Paulo Vieira. Além disso, Henry também produziu o CD “Depois da revoada”, 2012, junto com o músico e poeta paulistano Julio Luchesi.
Já como pesquisador, Henry é autor do livro “Cinco prefácios para cinco livros escritos: uma autobiografia filosófica de Nietzsche” (Tessitura Editora, Belo Horizonte, 2008), da coletânea de ensaios sobre filosofia e música “Nietzsche, Adorno e um pouquinho de Brasil” (Editora Unifesp, 2011) e do volume da Coleção Leituras Filosóficas da Editora Loyola “Para ler O Nascimento da Tragédia de Nietzsche” (2012).

Serviço
Lançamento do álbum Belém Incidental, de Henry Burnett
Onde? Sesc Boulebard (Boulevard Castilhos França, 562/563, Campina)
Quando? Sexta-feira (27), 19h
Entrada Franca

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