Belém do Pará, ano um. 401. | Parte 02

Olhe pela janela de sua casa. Seu olhar pode cruzar com um prédio neoclássico e atrás dele um gigante de dezenas de andares; vire um pouco o rosto, levemente, e o casebre se cruzará com a casa de vidro repleta de arame farpado; se olhar para rua, talvez, o vendedor de frutas do fim da tarde e a caminhonete de luxo estejam disputando o mesmo espaço. “Os marcos” da cidade ainda existem, mas eles não mais residem sozinhos. Ignorar essa cidade, e não apenas seu cotidiano, é ignorar o presente como modo de aprender a retirá-la de seu manto que a encobre e, mimosamente, a eleva, esquecendo-se que é justamente com o presente e a partir de um presente que podemos dar um salto de “imagens dialéticas” (Benjamin) com a história. Belém, nos seus 400 anos, não pode adotar o “escapismo do presente”. (“Belém 400 anos e o ‘escapismo do presente'”, Relivaldo Pinho, 2016)

Foto: Cezar Magalhães

Foto: Cezar Magalhães

Repleta de imaginários e lugares de fala como “nada aqui presta”; “ruim com fulano, pior sem ele”; “no tempo do Barata…”; “na época da Borracha…”, talvez (a população de) Belém seja marcada pela inércia. Sejamos sinceros e atenciosos: reclamamos muito, fazemos pouco (e não raramente ainda duvidamos/ criticamos quem faz), cansamos rapidamente. Esperar uma solução dos céus é mais cômodo e mais simples. Ad(Mirar) outros locais é melhor ainda. O “problema” é que tal admiração muitas vezes também parte de imaginários (nem sempre “reais”) como “lugar com mais oportunidades”, “cidade maravilhosa”, “lá pelo menos tem praia”, “vou poder usar roupa de frio” e assim por diante. Neste contexto, uma região torna-se mais especial: o Sudeste. O El Dorado da Amazônia contemporânea. A Pasárgada pós-moderna onde se-trampando-tudo-dá.
Sair de Belém e exilar-se e/ou tentar crescer em outra cidade é errado? Claro que não. A atitude ajuda de fato a capital paraense? Provavelmente não, o que não significa que é algo condenável, obviamente. Pelo contrário: só se cresce em contato com o outro, com as trocas.
“Como leitora do DAAD (Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico) e professora visitante na UFPA desejo às universidades da cidade que se abram mais, que recebam mais estudantes e professores de fora e mandem os seus docentes e estudantes para outros lugares, e que aprendam línguas estrangeiras (não só o inglês), porque cada nova língua pode dar uma nova visão ao mundo e possibilita um conhecimento e entendimento melhor do “outro” e um diálogo entre pessoas com perspectivas diversas”, destacou Sabine Reiter, que é linguista e entre 2001 e 2006 trabalhou como pesquisadora em um projeto de cooperação alemão-brasileiro no Museu Paraense Emilio Goeldi na área de documentação de línguas indígenas.
Indo além, esse imaginário-devoção por outras capitais pode causar outros tipos de “danos” à capital paraense. Neste sentido, a editora de vídeos Adrianna Oliveira aconselha: “Invista nos seus. Não pense que o que vem de fora sempre é melhor. Talvez, dessa maneira, Belém não seja na nossa memória, apenas a cidade da nossa infância, um ambiente que não nos pertence mais porque tivemos, quase que obrigatoriamente, tentar a vida em outro lugar. Assim, eu acredito que um dia, talvez, ela seja ovacionada como um lugar que te pede, mas que te dá de volta também”.

Foto: Angelo Cavalcante. A foto integra o acervo do projeto de pesquisa Fisionomia Belém.

Foto: Angelo Cavalcante. A foto integra o acervo do projeto de pesquisa Fisionomia Belém.

É ainda Adrianna que complementa afirmando que “Eu tenho a impressão de que quase tudo fora do eixo sudeste, centro oeste e sul é mais difícil. Frete grátis para todo o Brasil, exceto norte e nordeste. Nortista é nordestino no sudeste, castanha do Pará agora é castanha do Brasil. O que é nosso, no fim das contas acaba sendo deles também, mas as oportunidades deles quase nunca são nossas. Então o que eu desejo pra gente é orgulho, daqueles bons, porque a gente remanesceu a muitas dificuldades e ainda assim continuamos a produzir. Desejo também que trabalhadores se ajudem, que a gente incentive os profissionais daqui ao invés de acreditar mais uma vez que o que vem de fora é melhor”, destaca.

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Curioso é perceber que talvez pessoas “de fora” por vezes vaorizem mais a cidade que nós mesmos. Para a colombiana Ana Patricia Cacua Gélvez, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários da UFPA, a população de Belém em geral é “muito acolhedora, são pessoas muito boas, que ajudam muito os estrangeiros”, enfatiza. Ainda assim, não deixa de lado os problemas estruturais que a cidade possui, em especial o lixo e a insegurança. “Meu desejo é que Belém fosse muito mais limpa, tem muito lixo nas ruas. A solução com o problema da limpeza pede urgência”, afirma.
“À medida que a gente passa mais tempo na cidade a gente aprende a ter mais carinho pela cidade, muito mais amor, como se fosse parte nossa, por isso torço que tenha mais índices de emprego, que as pessoas fiquem bem e que seja uma cidade mais segura e especialmente mais limpa”, deseja a pesquisadora.

A “CIDADE POLIFÔNICA” E SUAS PERSPECTIVAS

Para tal fazer emergir tal orgulho, talvez seja necessário fazer uma força-tarefa em áreas/ “instituições” como na educação, nas famílias e nas mídias. Mais ainda: deveria vir com a proximidade da história para (re)conhecer de fato Belém. Estranhá-la. Compreendê-la. Aceitá-la. Sem resignação, mas sim com a paciência de quem sonha em fazer um grande amor crescer e melhorar ao seu lado.
As ações conjuntas são sugeridas por Sandro Ruggeri Dulcet, espanhol nascido em Barcelona, em 1962. Formado em Arte Dramática com especialidade em cenografia teatral, mora em Belém desde 1994. Atualmente Sandro dirige a empresa de tradução e interpretação Humana Com & Trad e o Instituto Humana, que atua na área da arte educação e em projetos sociais.
Para Sandro, deve haver uma intervenção e modificações levando em conta:

a) Cidade como espaço de convivência; a relação entre o usuário do espaço urbano e o próprio espaço físico: inúmeros exemplos de falta de percepção por parte dos cidadãos de que esse espaço é de uso partilhado, onde os meus direitos têm que entrar em sintonia com os dos outros. A falta de percepção deveria ser corrigida pelo poder público, que falha na aplicação do Código de Postura. A solução passa por uma intervenção maior e mais harmoniosa de todos os participantes. Essa intervenção envolve aspectos pontuais como a limpeza, o comércio informal, e mais amplos como a construção onde o antigo e o moderno entrem num diálogo mais proveitoso.

Foto: Maycon Nunes

Foto: Maycon Nunes

b) Cidade como espaço de educação ambiental: Trata-se de uma cidade na Amazônia, água e floresta deveriam ser os protagonistas, mais do que asfalto e prédios. Por que não fazer de cada canteiro um lugar para que as diferentes espécies locais sejam conhecidas, com informações detalhadas sobre a história biológica da Região? Isso passa por um projeto de arborização que teria como objetivo, também, fazer com que o pedestre pudesse andar nas ruas ao abrigo do sol equatorial e da chuva torrencial.
c) Cidade como espaço de luz: No mesmo sentido, aproveitar tudo aquilo que nos lembre que esta cidade não é uma cidade implantada, mas tem as suas peculiaridades, o seu jeito pessoal e intransferível, e o seu urbanismo e arquitetura deveriam refletir isso, sem cair num regionalismo folclórico e bairrismo redutor. Nesse sentido, as construções e o espaço urbano deveriam levar em consideração o clima, a iluminação, o regime das chuvas na hora de ser projetados e na sua realização.

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Metas bonitas, quiçá utópicas, mas que precisariam de ações e pessoas de fato interessadas em ajudar a capital. E muito mais além. Para o doutor em Ciências Sociais, pesquisador, professor e escritor Relivaldo Pinho, “os problemas da cidade continuam os mesmos de algumas décadas e eles não serão resolvidos por jargões como ‘vontade política’, ‘determinação’, ‘coragem pra fazer’ e coisas do gênero. Belém precisa enfrentar a crise de sua urbanidade com conhecimento, planejamento, legislação mais eficiente. Se isso é um aspecto decisivo, isso não garante uma mudança do espírito de uma cidade que vem se deteriorando”, explica.
“Inchada, desordenada, violenta, Belém precisará de muito tempo para mudar esse espírito do tempo que a vem marcando e gravando em seus habitantes a sensação de suportar sobreviver na cidade e não de viver como uma experiência cotidiana. O cotidiano belenense, com exceção da sua imagem veiculada com saudosismo e uma valorização insustentável de uma identidade romantizada, sobrevive precariamente”, decreta o autor de “Antropologia e filosofia: experiência e estética na literatura e no cinema da Amazônia” (Ed.ufpa.) e diretor, junto com Yasmin Pires, do documentário Fisionomia Belém.

Como se nota, neste ciclo de ações e percepções, práticas e modos de compreensão de nenhum modo se distanciam. Pelo contrário. É o próprio Relivaldo que afirma que “espero, sinceramente, que a cidade sofra uma modificação nesses aspectos estruturais. E que essa modificação atinja, posteriormente, a subjetividade de seus habitantes. Belém só enfrentará esse desafio se tiver o retorno em ações estruturantes e se seus habitantes conseguirem assimilar um sentido de experiência que funde, minimamente, um sentido de pertencimento”.
De qualquer modo, o que sempre segue presente é a necessidade imperativa de que a mudança de fato, depende de cada um de nós. Clichê? Sim. Bastante. Porém, é necessário sim compreender o papel de cada um e desenvolvê-lo da melhor forma possível.
Por fim, para Marcelo Vieira, jornalista especializado em Sustentabilidade e professor, mora no Rio de Janeiro desde 2010, que mas mantém laços firmes com a terra natal, “Belém precisa mais do que nunca dos belenenses, tanto os nascidos aqui como os que a adotaram como cidade do coração, os que estão perto e os que estão longe, como é o meu caso”. E isto porque é necessário “pensar a cidade com os olhos no futuro, no crescimento sustentado, na inclusão e no respeito, eliminando o oportunismo voltado a favorecer um ou outro grupo na luta pelo domínio político e econômico. Precisamos aprender a ser os cidadãos da Belém dos nossos sonhos – é o caminho para que ela se torne realidade”, finaliza.
Feliz chance de nova vida, Belém. Feliz ano um, 401.

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Enderson Oliveira

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