A “dupla feat.” ou a produção musical difusa/ confusa da pós-modernidade

Imagem: Divulgação/site oficial

Alexander Delgado e Randy Malcolm integram a cubana Gente de Zona. Imagem: Divulgação/site oficial

Se você conhece um pouco da produção musical de outros países latinos – lembremos e lamentemos que, para muitos, “música latina” é música não feita no Brasil… -, em especial a contemporânea, já deve ter conhecido a dupla cubana Gente de Zona, formada por Alexander Delgado e Randy Malcom. E, com eles, você conheceu inúmeros outros músicos, não é mesmo?! É “feat” pra lá, “feat” pra cá…
Tem dúvida? Faça um teste rápido: troque de aba e pesquise “Gente de Zona” no Youtube ou mesmo no Google. Enrique Iglesias, Marc Anthony, Juan Magan, Pitbull e Los del Rio (os mesmos do “êêê Macarena”) são rapidamente destacados por parcerias com os cubanos. Curiosamente (e ironicamente), um dos primeiros videoclipes encontrados nas buscas sobre a dupla que não possui “feat” é o da música “Algo contigo”…
Diante de tal panorama, surgem os questionamentos: Tal quantidade de parcerias é errada? Certamente não. Diminui a importância da obra deles? Não. Ou talvez não, já que sempre há o risco de notarmos, apreciarmos e nos interessarmos em um primeiro momento pelo conjunto ou mais pela performance do outro lado do “feat” que necessariamente de Delgado e Malcom que, é importante destacar, são ótimos no gênero e na proposta que seguem.

O possível “risco” se torna mais claro caso observemos um pouco mais detidamente o canal da dupla no Youtube. De 18 vídeos presentes até o fim de dezembro de 2016, 12 são de parcerias. Isto mesmo. A “dupla feat.”, que possui quatro álbuns lançados (Lo mejor que suena ahora (2008); Lo mejor que suena ahora vol. 2.0 (2008); A Full (2010) e Visualízate (2016)) parece não se importar muito com a apresentação de canções de autoria/performance própria ou mesmo em que ambos cantam “sozinhos”.
O “alerta” vale para outros músicos também, é claro, principalmente os latinos, já que a quantidade de parcerias é cada vez maior (fenômeno curioso que alcança tanto ícones do mainstream como nome da cena alternativa e “independente” – talvez a América Latina espanhola seja mais integrada que a portuguesa…). Utilizo Gente de Zona apenas como um exemplo para uma discussão um pouco mais ampla, que esbarra em “temas acadêmicos” e envolve estética, noção de autoria/autor, originalidade e consumo no período contemporâneo, “pós-moderno”.

Macarena e dois amigos
Este período, é importante lembrar, é muitas vezes marcado pelo ecletismo, pelo pastiche, pela celebração da “ausência de profundidade da cultura”, pelo fim da distinção hierárquica entre “alta cultura” e cultura de massas, além da suposição de que a arte pode ser somente repetição (Cultura de consumo e pós-modernismo, Mike Featherstone, Studio Nobel, 1995). Tal repetição com grande número de versões da mesma canção e a mistura de cantores diversos dão pistas sobre isto, notemos.
Indo além, observamos ainda na “tal pós-modernidade” os processos de “descontextualização” e “desterritorialização”, principalmente pela emergência e fortalecimento do ciberespaço, que torna possível a “desespacialização”. Para Martín-Barbero, (des)espacialização significa (…) a transformação dos lugares em espaços de fluxos e canais, o que equivale a uma produção e a um consumo sem qualquer localização” (Cidade virtual: novos cenários da comunicação, 1997). Nesta discussão, Ella Shohat e Robert Stam acrescentam afirmando que, ao entrar em contato com indivíduos nunca vistos, os consumidores dos meios de comunicação eletrônicos podem ser afetados por tradições com as quais não possuíam qualquer ligação anterior (A estética da resistência. In: Crítica da imagem eurocêntrica: multiculturalismo e representação. Cosac Naify, 2006).

A disponibilidade e o fluxo via internet de arquivos, como as músicas, é um bom exemplo disto, afinal possibilita-nos ter acesso, de algum modo, a inúmeras bandas, canções e experimentações em poucos clicks. Pronto. Este é um ponto chave para talvez compreender um dos porquês para tantas parcerias (além da hipótese sempre presente da dupla ter amigos demais e ser muito “gente boa” para ser convidada ou ter convites aceitos de outros músicos em larga escala…): a possibilidade de disseminação via internet. Aí o tal risco citado anteriormente vira oportunidade. O ciclo é lógico: com mais músicos envolvidos, maior é a possibilidade de alcance de (novo(s)) público(s); a (tentativa de) expansão do número de fãs não pode ser desconsiderada. Uns gostarão da música por “ser” de fulano; outros, por “ser” de beltrano e assim por diante. Música, web e consumo se encontram e se unem aqui.

Veja também: Música da América Latina em alguns clicks 

Este consumo em geral, como se sabe, se dá sem muitas explicações e sem muitos questionamentos. Muito menos sobre autoria ou mesmo originalidade. Em um período em que as identidades são cada vez mais “híbridas” e fluidas, a preocupação e a noção de autor são deixadas de lado, ainda que constituam “o momento forte da individualização na história das ideias, dos conhecimentos, das literaturas, na história da filosofia também, e na das ciências” (O que é um autor?, Michel Foucault, Editora Vega, 2015). É Foucault ainda que complementa afirmando que “o sujeito que escreve despista todos os signos de sua individualidade particular”. Na dispersão das identidades, das redes sociais e do ciberespaço, “morrem” os autores. A “individualização” na pós modernidade é destroçada, a autoria e originalidade deixam de ser requeridas, importantes. As misturas são encorajadas. Em tom grave e impositivo, o “feat.” dita a produção musical.

¡Más Macarena!
Através da (O Saber local, Clifford Geertz, Vozes, 2008) música, mais especificamente a produção e apresentação na web da dupla Gente de Zona, então, como você já notou, é possível observar pistas sobre o período contemporâneo e sua produção cultural. Sobre isto, Steven Connor já havia afirmado que (ao lado da indústria da moda), a música “é o melhor exemplo da vendabilidade elástica do passado cultural, com suas reciclagens regulares de sua própria história na forma de retomadas e refeituras, retornos e versões cover. Nos últimos anos, o desenvolvimento de novas formas de tecnologia acelerou e, de certa maneira, democratizou esse processo, a ponto de permitir que as evidências culturais do rock sejam fisicamente desmanteladas e remontadas como pastiche e colagem, com mais rapidez e falta de controle do que em qualquer época” (Cultura Pós-Moderna: Introdução às Teorias do Contemporâneo, Edições Loyola, 2000).

1993 encontra 2016. Ou o contrário. Foto: John Parra/ Getty Images for Univision

1993 encontra 2016. Ou o contrário. Foto: John Parra/ Getty Images for Univision

Connor afirma isto sobre o rock, mas acredito que a categoria pode ser expandida facilmente para a música como um todo. Gente de Zona não é de rock, não faz covers, mas sim alguns pastiches e participa de diversas colagens (sejam remixes ou “canções conjuntas”) e mesmo retoma algumas canções, como Macarena, lançada em 1993 pela dupla espanhola Los del Rio. É este mesmo ano que aparece como “cenário” após contagem regressiva na apresentação conjunta de espanhois e cubanos no Premios Juventud 2016. O passado segue presente. Mastigado, deglutido, posto à mesa para ser saboreado novamente. Os “concertos para a juventude” são “feat.”. Referências múltiplas se encontram e dialogam com o mercado.

Nesta fluidez sem fronteiras, o exemplo de “Más Macarena” é icônico e mostra não somente diversas facetas da produção musical, como a “volta” de determinados sucessos; as sempre presentes versões; a aposta em um single já reconhecido mundialmente que (volta) a ser sucesso e, por fim, na hibridização cultural. Este processo, como explicou Canclini décadas atrás, no es una simple mezcla de estructuras o practicas sociales discretas, puras, que existian en forma separada, y al combinarse, generan nuevas estructuras y nuevas practicas. A veces esto ocurre de modo no planeado, o es el resultado imprevisto de procesos migratorios, turísticos o de intercambio economico o comunicacional (Culturas Híbridas y Estrategias Comunicacionales. Estudios sobre las Culturas Contemporaneas. Universidad de Colima: Colima, México, 1997). Às vezes, no entanto, isto é bastante buscado e previsto e não somente uma mistura e “simbiose” sexual da personagem Macarena com seus dois amigos enquanto seu namorado não está presente – sim, a música fala disto.
Em tal miríade de referências, observamos então uma nebulosa noção de originalidade, uma autoria confusa e difusa no período pós-moderno em meio a tantos “feat.”, principalmente pelas necessidades do mercado e do consumo. Tudo isto deve ser ignorado? Tornado inaudível? Não. Aumente o volume. Sigamos bailando. “Más Macarena”.

Enderson Oliveira

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s