Das praças das cidades às dos shoppings: uma conversa com Ernani Chaves

Foto: Priscila Bentes

Foto: Priscila Bentes

Das praças das metrópoles do final do século XIX e início dos XX às praças de alimentação dos shoppings centers contemporâneos. Do caminhar do flâneur, anônimo na multidão, mas central nela mesma, ao caminhar deambulatório de um passante “comum” na confusão das grandes cidades.
Essas e outras discussões fizeram parte da segunda entrevista do documentário que está sendo produzido pela equipe do projeto de pesquisa “Comunicação, Antropologia e Filosofia: estética e experiência na comunicação visual, audiovisual e literária urbana da contemporaneidade de Belém do Pará”, coordenado pelo Prof. Dr. Relivaldo Pinho de Oliveira, da Universidade da Amazônia (Unama). A conversa foi realizada com o professor Ernani Chaves, no final de 2014.
Na entrevista, além das referências aos diferentes modos de trajetos e caminhares que iniciam este texto, foram discutidas e apresentadas impressões sobre o estado da arte produzida em Belém, em especial nas últimas três décadas, bem como as modificações urbanas que a capital paraense passou no mesmo período. Tais modificações, é importante destacar, vão além de “somente” sua paisagem.

Foto: Priscila Bentes

Foto: Priscila Bentes

“As representações de uma cidade são sempre representações históricas, fantasmagóricas e são feitas de determinado presente”, explicou Ernani. É justamente aí que reside o risco de se cair na afirmação ligeira e muitas vezes “enganosa” de que há nada de bom atualmente e de que no passado tudo foi melhor. Tal idealização de algo que não foi vivido, a “saudade do desconhecido”, pode ser considerada resposta fácil e muitas vezes oportunista, que pode embaçar uma série de novas possibilidades, complexidades e mesmo ocultaria a busca de soluções a alguns problemas.
Ainda para o pesquisador, outra marca da Belém atual, ou mesmo de toda e qualquer metrópole, é que a cidade contemporânea não é mais “simplesmente” dividida em bairros mais próximos ou distantes ao centro. “Em todos é possível ver todas estas diferenciações, que eram diferenciações da cidade”, esclarece Ernani. Surgem então “micro cidades”, complexas e fluidas.
Deste modo, a própria geografia é ressignificada: para condutores e passageiros, os trajetos que antes eram feitos em cerca de vinte minutos hoje levam mais de uma hora. A ação do passante também é modificada: com olhar cansado e fatigado com diversos estímulos publicitários, mira mais as telas de smartphones do que a paisagem à sua frente ou ao seu lado. Mudam-se os hábitos, mudam-se avenidas, modos de consumo. Ou seja, muda-se além da geografia da cidade, sua fisionomia urbana e seu modo de compreendê-la.
Tais mudanças, ou mesmo sua miscelânea, são potencializadas em Belém, já que “a Amazônia vive vários tempos”, seja o mítico, o moderno, o pós-moderno, como destacou o professor. Uma cidade heterotópica emerge então, o que também está presente não somente na produção publicitária, mas também nas artes.
Neste panorama, ainda há a recorrência de referências e citações repetitivas, questionáveis e incensadas – como a recorrência das representações da natureza, o verde amazônico caracterizando a fisionomia da região, hábitos ainda ribeirinhos ou mesmo a prevalência na utilização de alguns pontos turísticos, como o Ver-o-Peso, para citar somente alguns exemplos.

Bar Azul, de Luiz Braga. Fonte: Reprodução

Bar Azul, de Luiz Braga. Fonte: Reprodução. Veja uma análise sobre a fotografia no texto “Imagem e representação em Bar azul, de Luiz Braga”, de Relivaldo Pinho de Oliveira

Outros tipos de produção, no entanto, confrontam e incomodam: como se o olhar para si causasse mais estranheza do que para o outro, em uma realidade em movimento, mutante, desconfortante. Exemplo disso podem ser as fotografias de Luiz Braga, citadas por Ernani, que apresentariam tal sensação não somente como (quiçá) uma inovação estética, mas sim como uma nova interpretação ou ressignificação da Belém contemporânea, discutida no documentário.

Veja também: “Belém, esse estranho ir e vir, ou uma conversa com Edyr”, sobre a entrevista feita com Edyr Augusto.

Texto originalmente escrito por mim para o blog “Fisionomia Belém”, do grupo de pesquisa “Comunicação, Antropologia e Filosofia: estética e experiência na comunicação visual, audiovisual e literária urbana da contemporaneidade de Belém do Pará”

 

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2 respostas em “Das praças das cidades às dos shoppings: uma conversa com Ernani Chaves

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