Belém, esse estranho ir e vir, ou uma conversa com Edyr

Foto: Priscila Bentes

Edyr Augusto em entrevista em dezembro de 2014. Foto: Priscila Bentes

Tarde de sexta-feira de dezembro. O calor comum em Belém castiga quem passa pela Presidente Vargas. Em uma sala de um prédio da avenida, mais precisamente o escritório da Rádio Jovem Pan, no Palácio do Rádio, um senhor toma alguns goles de Coca-Cola e mostra as edições francesas de seus livros, tendo atrás de si uma parede amarela com quadros em pop art de Audrey Hepburn.


Neste cenário que poderíamos chamar de “pop” (?) foi feita a filmagem da primeira entrevista para o documentário acerca da atual fisionomia urbana de Belém, produzido pelo grupo de pesquisa “Comunicação, Antropologia e Filosofia: estética e experiência na comunicação visual, audiovisual e literária urbana da contemporaneidade de Belém do Pará”, coordenado pelo Prof. Dr. Relivaldo Pinho de Oliveira, da Universidade da Amazônia (Unama).

Capa da edição francesa de Moscow. Crédito: Reprodução.

Capa da edição francesa de Moscow. Crédito: Reprodução.

O senhor entrevistado, imerso no cenário pop e sedento pelo refrigerante mais vendido no mundo, era Edyr Augusto, jornalista, radialista, redator publicitário, autor peças de teatro e livros como Os Éguas (1988), Moscow (2001),  Casa de caba (2004) e o mais recente Selva Concreta (2007) e Um sol para cada um (2008).
A conversa, apesar de curta (durou menos de uma hora) pôde ser considerada instigante como seus livros, carregando o mesmo incômodo e a tentativa de transformação de uma cidade caótica – ainda que caos tenha virado um clichê, especialmente jornalístico, de uns anos para cá – e que passa (ou sofreu e sofre?) um processo de urbanização e “metropolização” às pressas e cambaleante, como os trajetos do (anti)heroi Gilberto Castro, delegado alcoólatra de “Os Éguas”.
Durante a entrevista, Edyr falou de suas impressões da fisionomia urbana de Belém não somente do ponto de vista arquitetônico, mas que também é produzida pelos passantes. Daí veio uma das críticas mais agudas do autor (ou apenas sujeito observador que com sua pena conseguiu traduzir determinado excerto de/sobre Belém), ao comentar o andar sem ordem do paraense, um estranho ir e vir perdido na selva concreta, que irá desencadear uma série de incômodos a outros passantes, sejam da cidade ou não. Essa sensação de perda é diferente da exaltada por Walter Benjamin, para quem perder-se na própria cidade era o maior desafio. Não se trata de um caminhar solitário e que rende descobertas, mas sim de um andar apressado, lacunar, vazio, em geral com fim previsível e repetitivo.

Capa da edição brasileira de Os Éguas. Crédito: Arquivo pessoal

Capa da edição brasileira de Os Éguas. Crédito: Arquivo pessoal/Enderson Oliveira

O caminhar se assemelharia a outras práticas e hábitos em Belém, como a tentativa de ignorar a pobreza da cidade (e mesmo do Estado e da região) e a ignorância da “elite” paraense, que, mesmo com rotas mundiais anuais, raramente (ou nunca) contribui de algum modo com a realidade – preocupante – da capital paraense, entre outros temas.
Tudo isto foi comentado e discutido por Edyr, entre um gole e outro de Coca-Cola, mas poderia ter sido dito por Gilberto ou outro personagem que, ainda que vivencie a cidade, tenta esconder-se ou escondê-la da mesma, sem se eximir da responsabilidade que possui com sua fisionomia, representatividade e situação.

Texto originalmente escrito por mim para o blog “Fisionomia Belém”, do grupo de pesquisa “Comunicação, Antropologia e Filosofia: estética e experiência na comunicação visual, audiovisual e literária urbana da contemporaneidade de Belém do Pará”

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2 respostas em “Belém, esse estranho ir e vir, ou uma conversa com Edyr

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  2. Pingback: Filme “Fisionomia Belém” entra em cartaz em janeiro na capital paraense | Blog de Enderson Oliveira

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